sábado, 13 de outubro de 2012

Desconstruindo Hobsbawm - O ESQUELETO QUE SORRI

No seu "Era dos Extremos", Eric Hobsbawm, tão lido no Brasil, falsifica a história para absolver Stálin. Sua versão da 2ª Guerra foi aquela fabricada em Moscou

Por Demétrio Magnoli


"Eu entendi isso, Edward. Esse esqueleto nunca sorrirá novamente." Leszek Kolakowski, filósofo polonês exilado, concluiu com essas palavras sua réplica ao historiador Edward P. Thompson, que o acusara de trair os ideais socialistas.
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O ano era 1974, seis depois da invasão da Tchecoslováquia pelas Forças do Pacto de Varsóvia. Thompson rasgara sua carteirinha do Partido Comunista britânico em 1956, na hora da invasão soviética da Hungria, mas interpretava o stalinismo como apenas um deplorável desvio no curso da história rumo ao radioso futuro comunista. Kolakowski, porém, sabia mais -e tinha um norte moral melhor.
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Eric Hobsbawm nunca renunciou à sua carteirinha do partido.

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Aos 23 anos, ele assinou com Raymond Williams um panfleto de apoio ao pacto Molotov-Ribbentrop, entre a URSS de Stálin e a Alemanha de Hitler. Na maturidade, atravessou impávido as fogueiras da Hungria e da Tchecoslováquia.
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Em 1994, aos 77 anos, pouco depois da queda do Muro de Berlim, publicou "Era dos Extremos", uma interpretação do século 20 consagrada a desenhar um sorriso no esqueleto já enterrado do stalinismo.
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Hobsbawm, notável narrador do século 19, autor da trilogia das "eras" que desvendou para o grande público a trama da história contemporânea, entregou-se então à falsificação deliberada para restaurar o argumento imoral de Thompson.
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A "era dos extremos" é uma tese paradoxal, cuja síntese emerge na sua introdução: "A vitória da URSS sobre Hitler foi uma realização do regime lá instalado pela Revolução de Outubro. Sem isso, o mundo hoje (com exceção dos EUA) provavelmente seria um conjunto de variações sobre temas autoritários e fascistas, mais que de variações sobre temas parlamentares liberais."
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O totalitarismo stalinista, assegura-nos o historiador, podia ter seus defeitos, mas representava o socialismo e, sem ele, a humanidade teria sido tragada, em definitivo, pelo vórtice do fascismo.
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O tribunal final da História, constituído por um único juiz, o próprio Hobsbawm, oferece um veredicto de absolvição dos processos de Moscou, do gulag, da supressão absoluta da liberdade. A matéria pútrida do "socialismo real" salvou-nos, a todos, de um destino pior, que era tecido pelo capitalismo em crise.
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A narrativa inteira se organiza persuasivamente ao redor da tese, investindo na aposta segura de que o leitor médio carece das informações indispensáveis para refutá-la.
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O regime de Stálin destroçou o comando das Forças Armadas soviéticas nos expurgos dos anos 30, aumentando a vulnerabilidade do país à invasão alemã. A URSS não triunfaria sobre Hitler sem a vasta ajuda militar americana.
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No primeiro e crucial ano do conflito, a aliança firmada pelo pacto Molotov-Ribbentrop converteu a URSS em fornecedora principal de matérias-primas e combustíveis para a máquina de guerra nazista.
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A história de cartolina de Hobsbawm é uma contrafação da história da Segunda Guerra, inspirada diretamente pelas narrativas oficiais fabricada por Moscou no imediato pós-guerra. O esqueleto precisa antes mentir, para depois sorrir.
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A trilogia das "eras", narrativas eruditas escritas em linguagem cristalina, foi a porta de entrada de centenas de milhares de leitores para as delícias da história. "Era dos Extremos" singrou no oceano de autoridade das obras precedentes.
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No Brasil, país onde Hobsbawm tem mais leitores do que na Grã-Bretanha, o livro beneficiou-se de uma recepção laudatória, patrocinada por intelectuais inconformados com as marteladas críticas dos berlinenses daquele 9 de novembro de 1989.
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Fora daqui, porém, nem todos aceitaram sorrir junto com o esqueleto de uma mentira.
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Num ensaio de 2003, o historiador Tony Judt escreveu o epitáfio incontornável: "Hobsbawm recusa-se a encarar o mal face a face e chamá-lo pelo seu nome; nunca enfrenta a herança moral e política de Stalin e de seus feitos. Se ele pretende seriamente passar o bastão radical às futuras gerações, essa não é a maneira de proceder".
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DEMÉTRIO MAGNOLI, 53, é sociólogo e doutor em geografia humana
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Fonte: Folha de São Paulo

Rússia e Iraque tem posicionamente alinhado sobre a questão Síria

A Rússia e o Iraque compartilham a opinião de que a situação na Síria deve ser resolvida sem qualquer interferência estrangeira. A declaração é do Primeiro-Ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, durante seu encontro com o Presidente russo, Vladimir Putin, na quarta-feira, 10, em Novo-Ogarevo, na região de Moscou. Ambos os líderes manifestaram o total apoio à missão do Enviado Especial da ONU e da Liga Árabe, Lakhdar Brahimi, para que se alcance uma solução pacífica para a crise interna síria.  

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que o encontro serviu para trocar opiniões sobre as grandes questões internacionais e regionais. Ele afirmou que é gratificante que os pontos de vista entre os dois países estão muito próximos em diversas questões.

(FONTE: DIÁRIO DA RÚSSIA)

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mi-28 e Pantsir-S1 para o Iraque



https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhWbrhiUCzUOfAOGtUqFwcgWJfka-8B88IlYQy4eB3JxWH6G8ARTjHTXnsi6nUUdBSBiDpuS_s9-dlKng1a0e1cYUbdFoJ_XFs6pjInE1Rb9HYHtb7A4Tdgleu5uX1XdeO_HaZOeY_F-E8/s400/mi-28-1.jpgFoi confirmado hoje a transação de armas entre a Rússia e o Iraque, avaliada em cerca de US$ 4,2 bilhões, incluindo helicópteros de ataque Mi-28N e sistemas móveis de defesa aérea, num acordo que já estaria definido em segredo desde o começo do ano. O acordo é o maior já realizado pela Rússia desde 2006.
Nessa terça-feira, um documento emitido sobre a reunião entre o primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki, com o seu homólogo russo, Dmitry Medvedev, confirmou que os acordos foram definidos nos meses de abril, julho e agosto, conforme disse o ministro interino da Defesa do Iraque.
Segundo o documento, Moscou fornecerá 30 helicópteros de ataque Mil Mi-28NE com capacidade de voo noturno e em qualquer condição atmosférica, e 50 sistemas de defesa aérea Pantsir-S1 com mísseis de curto alcance.
Não foram divulgados os prazos de entrega, mas o negócio confirma o interesse de Bagdá de não ficar totalmente dependente dos EUA, país o qual já vendeu caças F-16 para o Iraque.

Fonte: CAVOK via Vinna


Iraque surge como peça "chave" no mercado global de petróleo

Iraque surge como peça "chave" no mercado global de petróleo:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEh0KONwv-xgzb5G1hh7tYTZ_rzRJv7Gi4OjSda0ORC5zhOAgfKGdZ3N36C2pd1bxYftem-YYYzHB16vmfmOPP_fe2bWd4RUYHqcLuEfqbtpln1021E5sUbAPeZ3oM5Y7eYfnXAYc1wDRYKy/s1600/Iraq_six_years_later_by_Latuff2.jpg

O Iraque poderia superar a Rússia como segundo exportador de petróleo do mundo, em 2035, se conseguir usar seu potencial para dobrar a produção nesse período, segundo disse nesta terça-feira a Agência Internacional de Energia (AIE).
A AIE, que avalia periodicamente o mercado energético para seus 28 Estados-membros, afirma que o país árabe tem recursos para duplicar a produção até 2020, chegando a 6 milhões de barris diários. Se mantiver o ritmo, poderá chegar a produzir 8 milhões de barris diários em 2035.
Isto situaria o país como segundo exportador mundial, atrás apenas da Arábia Saudita, e transformaria o Iraque em peça "chave" para os mercados globais, já que garantiria a provisão e apresentaria uma estabilidade frente ao risco de escassez de petróleo e alta dos preços, indicou a agência ao apresentar o relatório em Londres.
Neste documento, a AIE- fundada após a crise de 1973 para garantir segurança energética a seus membros, os países desenvolvidos- estima que, em ótimas condições, o Iraque representará 45% do aumento da produção mundial para 2035 pela frente do conjunto da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Nas próximas décadas, o Iraque, que atualmente é o terceiro exportador do mundo, se transformará no principal fornecedor da Ásia, sobretudo da China, aonde, dentro de 25 anos, poderia enviar cerca de 2 milhões de barris de petróleo diários.

Segundo o economista-chefe da AIE, Fatih Birol, é de interesse global que o país árabe possa alcançar esse potencial de produção de petróleo, já que, caso contrário, com a alta dos preços e diminuição de áreas exploráveis, "os mercados passarão por fases turbulentas" nos próximos anos.
É necessário que o Iraque aumente progressivamente o ritmo de investimento em infraestrutura, fornecimento de água e educação, que hoje é de US$ 9 bilhões. O ideal seria, nos próximos 25 anos, investimentos de US$ 530 bilhões.
Outro desafio que o governo de Bagdá enfrenta - apontou Birol- é melhorar a provisão elétrica nacional, ainda muito pobre, o que permitiria se concentrar em desenvolver a indústria petrolífera.
No melhor dos casos, aponta o economista, o país poderia chegar até 2035 com rendas anuais de US$ 200 bilhões provenientes do petróleo, o que compensaria amplamente o investimento necessário.
Birol assinalou que, com essa receita, o Iraque poderia diversificar sua economia, que atualmente depende da venda de petróleo em uma proporção de 72% do Produto Interno Bruto (PIB).
A AIE, que contou com a colaboração das autoridades iraquianas em seu relatório, assinalou que o país tem também muito por fazer no campo do gás natural, embora essa fonte de energia deveria ser utilizada num primeiro momento internamente para melhorar a provisão energética, e depois ser exportada.

Fonte: Terra via Vinna

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As tatuagens e a desfiguração do corpo

POR ORLANDO BRAGA | 03 OUTUBRO 2012 


“Um destes últimos dias – o que, de resto, faço em quase todas as semanas do ano – fui ao supermercado. Que tenha reparado, na ocasião, cruzei-me sucessivamente com três moçoilas, todas elas tatuadas: uma, tinha o desenho de um golfinho no pescoço; outra, de um conjunto de estrelas também no pescoço; outro ainda, por sinal trajada de forma bastante imodesta, de mais um conjunto de estrelas, desta vez abaixo do seu ombro esquerdo, e do que me pareceu ser um sol no respectivo tornozelo direito. Pelo meio, ainda topei um “orc” com um caracter chinês grafado na zona da nuca. Pensei para comigo: isto são pequenos sinais evidentes de uma sociedade em avançado estado de decomposição e em processo de acelerado retorno à barbárie.”

A tatuagem moderna tem pouco a ver com as culturas dos povos primitivos; trata-se de um fenômeno cultural novo e muitíssimo mais nocivo do que as tatuagens das culturas arcaicas. Enquanto que, nas sociedades primitivas, a tatuagem tinha um valor de ordem, na sociedade atual tem um valor de desordem.

No homem das culturas primitivas — vulgo “bárbaro” — a tatuagem tinha um sentido religioso e comunitário. Podemos discutir se a religião dele era positiva e evoluída, ou não. Mas a verdade é que a tatuagem desempenhava uma função religiosa que ligava o indivíduo à comunidade. 

Ora, o que acontece com a função cultural atual da tatuagem é exatamente o contrário da do homem primitivo: é a manifestação de uma anti-religiosidade básica e primária mediante a adoração do feio e da desfiguração do corpo, por um lado, e, por outro lado, é o divórcio do indivíduo em relação à comunidade, por intermédio de uma afirmação radical da identidade individual e da supremacia absoluta do valor da denominada “autonomia do indivíduo”.

A tatuagem revela também o masoquismo prevalecente em uma certa subcultura atual e o mimetismo preconizado por Georg Simmel mediante o conceito de efeito “trickle-down”. Um certo masoquismo e sadomasoquismo que prevalece em uma certa elite cultural tatuada — por exemplo, as estrelas POP e de cinema imiscuídas na cultura gayzista que é sadomasoquista por sua própria natureza, e naideologia de neutralidade de gênero que nega a realidade objetiva da Natureza —, e esses valores negativos são transmitidos por mimetismo cultural através dos “me®dia” à sociedade em geral.

A assunção da tatuagem, à semelhança por exemplo do “coming-out” gay, é uma espécie de “coming-out” anti-social e, por isso, anti-religioso. Não é possível separar o fenômeno da tatuagem atual, por um lado, dos valores estéticos negativos da moda controlada por criadores homossexuais, a partir da década de 1970, que criaram o modelo da mulher anoréxica que revela a imagem do prazer do pederasta, por outro lado.

Um fenômeno idêntico aconteceu com o consumo de drogas: começou por ser um fenômeno cultural de uma certa elite, passou à sociedade em geral e às classes mais baixas através da moda e mediante o efeito trickle-down, e hoje é já uma cultura rejeitada tanto pelas elites como pela sociedade.

O significado (o valor do símbolo) não é o mesmo do do homem primitivo. A tatuagem no homem primitivo era um símbolo, e não apenas um signo ou sinal. O símbolo tem um conteúdo, em que é simbolizado o representado, enquanto que os sinais são escolhidos arbitrariamente. O símbolo, para além do significado cultural que o sinal também pode ter, tem um significado espiritual (relativo à experiência humana subjetiva e que adquire uma significação de experiência intersubjetiva e/ou coletiva, e por isso, religiosa) que o sinal não tem. Um sinal só passa a ser um símbolo quando passa a ter um conteúdo com relação a um representado, o que lhe retira a arbitrariedade previamente existente. Um símbolo é eminentemente intersubjetivo, e nunca se muda porque isso resultaria também na dissolução do seu significado intersubjetivo; um sinal pode ser mudado mantendo-se o seu significado anterior.

Portanto, enquanto que para o homem das culturas primitivas, a tatuagem era um símbolo (com respeito à religião e à sua ligação à comunidade), para o homem contemporâneo a tatuagem é apenas um signoou sinal desprovido de qualquer religiosidade e de qualquer ligação intrínseca à comunidade



Nova série de tevê aborda nova tendência bizarra no Japão, os ‘bagel heads’ - via Bagel head trend: Are saline injections Japan´s most extreme beauty look yet? | Mail Online.
A tatuagem pretende ser também a negação da uniformidade pós-modernista e a luta contra a homogeneização cultural, mas acaba por redundar numa uniformização e homogeneização formal da cultura, ou seja, mudam os conteúdos mas mantém-se uma forma cultural homogeneizada.
O valor da tatuagem, em relação à sociedade e ao contrário do que acontecia nas sociedades primitivas, é hoje um fenômeno cultural negativo porque se trata de uma auto-mutilação com um conteúdo e valor estritamente individual — na maior parte dos casos inestética, anética e por isso anti-religiosa —, desprovido de simbolismo intersubjetivo social e comunitário. Revela o fenômeno cultural atual daatomização da sociedade e do isolamento do indivíduo face ao Estado, que anuncia um novo tipo de totalitarismo que ameaça.

Orlando Braga edita o blog Perspectivas – http://espectivas.worpress.com


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Kosovo ganha soberania plena

Kosovo ganha soberania plena, mas ainda depende de apoio externo

Mais de quatro anos após a declaração de independência, Kosovo ganha a soberania plena, com a suspensão da tutela internacional sobre o país. Mas pobreza e alta criminalidade comprometem liberdade do país.

O chamado Grupo Internacional de Supervisão do Kosovo (GIS), ao qual pertence a maioria dos países da União Europeia, assim como os EUA e Turquia, decidiu já em julho pela suspensão da tutela sobre o país, medida que entra em vigor nesta segunda-feira (10/09), dando a soberania plena ao Kosovo.

O conceito de "independência tutelada" foi criado pelo antigo mediador para o Kosovo, Martti Ahtisaari. O GIS tinha o direito de bloquear leis ou mesmo afastar ministros. O Parlamento em Pristina aprovou na sexta-feira todas as alterações constitucionais necessárias para permitir a total independência do Kosovo, e a maior parte das minorias no Parlamento votou a favor. O governo classificou a data como um "dia histórico" e "o início de uma nova era".

O Kosovo é agora uma "democracia moderna e multiétnica", e as instituições do Kosovo estão prontas "para assumir total responsabilidade", afirmou o GIS, ao justificar sua decisão. Em entrevista à Deutsche Welle, o especialista em Bálcãs Norbert Mappes-Niediek se diz convicto de que o Kosovo está pronto para prosseguir sem tutela internacional.

Governo não controla o norte

"Um país só é independente caso se comporte independentemente. Foi o que o Kosovo fez. Os kosovares se libertaram. Fizeram por muito tempo uma resistência passiva contra a Sérvia. Eles lutaram numa guerra e, assim, se tornaram uma nação. Não cabe a ninguém atestar se eles estão prontos ou não", sublinha Mappes-Niediek.

Com o consentimento da maioria dos países ocidentais, incluindo Alemanha, EUA, Reino Unido e França, o Kosovo declarou sua independência em 17 de fevereiro de 2008. Antes disso, todos os esforços do mediador da ONU Martti Ahtisaari foram em vão, e não foi encontrado um acordo entre Belgrado e Pristina.

Ahtisaari propôs em 2007 um plano prevendo uma independência tutelada pelo Gabinete Civil Internacional para o Kosovo (ICO, na sigla em inglês). Seu plano foi implementado sem o consentimento de Belgrado e sem o reconhecimento pelo norte do Kosovo, cuja população é de maioria sérvia.

Agora, a tutela internacional foi suspensa oficialmente, embora o governo em Pristina ainda não tenha controle real algum sobre o norte do país. Mas o controle da integridade territorial é apenas um dos grandes problemas que as instituições do país ainda terão que enfrentar.

Dependência econômica, pobreza e crime

"Economicamente, o Kosovo não pode se sustentar, de forma alguma", ressalta Mappes-Niediek. "É o país mais pobre da região", acrescenta. Outro problema é a grande emigração de jovens com boa formação educacional. "O Kosovo só pode sobreviver com uma maciça ajuda econômica", observa o especialista em Bálcãs. "Isso limita a soberania, e essa doação formal de plena soberania não tem grande importância, já que é restrita fortemente pela dependência econômica e política."

Com uma renda per capita anual de apenas 2 mil euros por habitante, o Kosovo continua a ser o país mais pobre da Europa. A taxa oficial de desemprego é de 43%, e cerca de 40% da população vive na pobreza. Entre os maiores desafios estão a luta contra a corrupção e o crime organizado.

No entanto, o professor universitário kosovar Arsim Bayrami está convencido de que o Kosovo tem condições de vencer esses desafios. "O crime organizado e a corrupção são coisas que acontecem dentro do Kosovo, e as pessoas do país sabem muito bem como funcionam. Por isso, tenho certeza de que eles podem ser combatidos com sucesso apenas por instituições do Kosovo. A comunidade internacional falhou na luta contra a corrupção e o crime organizado. Agora, cabe às nossas instituições fazê-lo", diz Bayrami.
Manifestação contra independência do Kosovo: sérvios continuam a discordar


"O Kosovo precisa de apoio"

Segundo Bayrami, agora está claro que as instituições não podem encontrar mais um outro "culpado" para a corrupção e o crime organizado. No entanto, está também claro que o governo e a polícia do Kosovo não podem, sozinhas, lutar contra a corrupção e o crime organizado no norte do país. Para isso, é necessário o apoio das tropas internacionais de paz do Kosovo (KFOR) e da missão europeia Eulex. "Não há atualmente uma soberania absoluta. O Kosovo precisa do apoio da KFOR e da Otan para garantir a segurança e a integridade do país."

Para o ex-ministro sérvio para o Kosovo Goran Bogdanovic, há outros desafios, especialmente no que diz respeito à minoria sérvia. "Há problemas com a liberdade de circulação, com propriedades sérvias no Kosovo e com a falta de boa vontade das elites políticas em Pristina e Belgrado, para possibilitar a reconciliação e o retorno dos refugiados", lembra Bogdanovic, complementando que estes problemas "não podem ser resolvidos sem a ajuda da comunidade internacional". "Pois a situação no Kosovo pode ficar ainda pior", alerta o político.

Ninguém quer novos refugiados

Atualmente, não existe um apoio internacional amplo para o Kosovo. Apenas 91 de um total de 193 países da ONU reconheceram até agora o país mais jovem da Europa, e até mesmo cinco Estados-membros da UE (Espanha, Chipre, Grécia, Romênia e Eslováquia) ainda se recusam a reconhecer a independência do Kosovo. Uma das razões é que quase todos esses países temem um precedente que possa agravar seus próprios problemas com minorias. 
Um maior estorvo, contudo, ainda é a atitude do governo em Belgrado, que afirmou repetidas vezes que jamais vai reconhecer a independência de sua antiga província. As tensões entre Belgrado e Pristina ainda são muito fortes. No entanto, Mappes-Niediek não acredita que a situação venha a se deteriorar significativamente. "Não acredito em piora ainda neste fim de ano, porque Berlim ainda está pressionando muito fortemente por uma retomada das negociações", acredita.

A sua avaliação é que uma ofensiva militar das tropas da KFOR contra os sérvios no norte do Kosovo não seria conveniente. "Uma ofensiva do tipo seria devastadora, porque causaria a fuga de 40 a 50 mil pessoas. Não queremos em 2012 e 2013 uma nova onda de refugiados", diz.

Belgrado e Pristina concordaram em participar de novas negociações políticas. Entretanto, as posições iniciais ainda são muito diferentes. Enquanto a Sérvia só quer negociar sobre o status do Kosovo, Pristina quer conversar somente sobre a normalização das relações entre dois Estados independentes. Um acordo ainda é uma incógnita.

Autor: Bahri Cani (md)
Revisão: Carlos Albuquerque
Fonte: DW